Última alteração: 2012-09-20
Resumo
Introdução
As mudanças estruturais no sistema de comunicação da ciência, ocorridas com a Iniciativa dos Arquivos Abertos (OAI) e o Movimento do Acesso Aberto (OA), permitiram que a dinâmica da comunicação científica, em todo o seu processo – aquisição, produção, disseminação, utilização – e o modo como os cientistas e académicos publicam os resultados da sua investigação e se relacionam com os seus pares, se alterasse por completo, levando a que os editores comerciais perdessem o direito exclusivo de distribuir a produção científica no contexto digital.
Neste contexto, uma das iniciativas do Movimento de Acesso Aberto foi a de recomendar às instituições universitárias, a necessidade de criarem os seus próprios repositórios, como resposta aos constrangimentos impostos à difusão da literatura cientifica, e com a intenção de preservar e maximizar o impacto da investigação realizada no seu seio, adotando um sistema global e interoperável. Assim, em Portugal, e ao longo destes últimos anos, foram surgindo vários repositórios institucionais que centralizam a produção académica e científica das universidades e outras instituições de ensino superior, de forma estruturada e organizada, preservando-a, divulgando-a e aumentado a sua visibilidade na rede informática mundial.
Objetivos e Metodologia
A presente comunicação baseia-se em dados recentes, obtidos através de um inquérito aos docentes e investigadores da Universidade de Coimbra (UC) com a intenção de conhecer a perceção e o comportamento dos autores quanto ao depósito dos seus documentos no repositório digital da Universidade de Coimbra, o Estudo Geral, e a utilização que fazem da informação aí depositada, particularizando alguns dos efeitos associados a esta prática.
Nesse sentido, a informação a apresentar respeita ao entendimento que os autores têm sobre questões relacionadas com o depósito de documentos, e que se traduzem numa perceção positiva – como seja a facilidade de acesso à produção científica, a divulgação acrescida, o aumento da sua visibilidade e do impacto no número de citações – ou numa perceção negativa – o que pode ocorrer com o impacto em futuras publicações, com o aumento do risco de plágio, do uso indevido de conteúdos sujeitos a copyright ou, ainda, da exposição e utilização de informação sigilosa ou de conteúdo sensível – e que resultam do facto de os documentos estarem depositados no Estudo Geral.
Resultados e discussão
Nas respostas obtidas ao questionário, constata-se que a perceção que existe sobre o aumento da frequência de depósito é reduzida, apesar de se considerar que a divulgação acrescida da produção cientifica depositada é eficaz e que a facilidade de acesso a esta literatura assume significativo interesse. Tal, confirma a importância atribuída pelos autores à disponibilização da informação científica em acesso aberto e à sua difusão no Estudo Geral, sustentando resultados obtidos em anteriores estudos (Borges, 2006).
O aumento da visibilidade da produção científica é percebido como benéfico, mas este resultado não se traduz numa perceção suficientemente positiva para maximizar o impacto no número de citações, já que, na sua maioria, os respondentes não percecionam esta vantagem como decorrente das anteriores.
Relativamente a questões que poderiam traduzir-se em perceções negativas, o impacto em futuras publicações não parece constituir uma barreira ao depósito, já que o número de respostas a esta preocupação é manifestamente reduzido.
O aumento do risco da utilização de conteúdos sujeitos a copyright representa, de facto, uma preocupação para os autores, que percecionam este risco de forma negativa. Tal atitude pode advir do receio de uma eventual quebra de compromisso com os editores comerciais (Borges, 2006, p. 444). Por outro lado, indicia o desconhecimento das políticas de copyright praticadas pelas editoras que já permitem algumas formas de autoarquivo, em 87% dos títulos pesquisados no SHERPA/RoMEO, denunciando políticas cada vez menos restritivas (SHERPA Services Blog , Nov. 2011).
Existe uma avaliação negativa para o risco de plágio, considerando que o depósito da produção científica aumenta este risco, ainda que apresente valores inferiores aos verificados anteriormente (Borges, 2006), do mesmo modo que existe um aumento do risco de utilização de conteúdos sensíveis (conteúdos de valor político, comercial, ou de dados pessoais) com um conjunto alargado de respostas a traduzirem esta ideia.
Conclusão
A perceção dos autores sobre os efeitos associados ao depósito da sua produção científica no repositório institucional da Universidade de Coimbra obriga a um reforço do esclarecimento de dúvidas e receios, muitas vezes infundados, mas que se manifestam de forma generalizada, e que se traduzem em barreiras ao depósito.
Sendo a colaboração dos autores essencial para a manutenção e desenvolvimento do Estudo Geral, também são evidentes os ganhos que resultam para os mesmos, permitindo-lhes obter maior visibilidade e uma divulgação acrescida do trabalho produzido, contribuindo para um potencial crescimento do número de citações.
Torna-se, pois, necessário conhecer as motivações, as expectativas, os obstáculos e as limitações que orientam os autores, depositantes e utilizadores do Estudo Geral, para que se invista numa promoção mais ativa dos objetivos do Acesso Aberto (OA), das vantagens associadas ao depósito e do aperfeiçoamento dos procedimentos de autodepósito, com o objetivo de ultrapassar dificuldades e resistência e, em particular, de melhorar o desempenho e conseguir maior satisfação por parte dos autores depositantes do repositório digital da Universidade de Coimbra.